Devo ser uma voz maldita entre quem tem blogues e trata de política: Ao contrário da maioria, não demonizo a imprensa brasileira, não a acho ruim e, principalmente, não vibro com as más notícias que nos informam sobre cada vez menores números em vendas de exemplares de jornais e revistas.
Para início de conversa, é preciso lembrar coisas básicas que talvez escapem a muitos dos que fazem parte da torcida organizada "Abaixo à Imprensa":
1- Blogues e Twitter não produzem "conteúdo jornalístico" - Ou alguém aqui pode me lembrar de uma grande reportagem trazida à tona em um blogue 100% blogue? Blogues não têm correspondentes em Brasília ( exceção a alguns blogueiros ligados a portais de notícias, mas estes são profissionais, ou seja, não cabem no balaio de 99% da blogosfera ), blogueiros não vão a entrevistas coletivas, quando conseguem entrevistas com políticos isto se dá geralmente por e-mail, e por aí vai. Blogueiros até podem ter fontes, mas dificilmente os terão a fazer frente a uma equipe jornalística de qualquer veículo midiático grande. Mas eu posso estar errado e ter perdido o dia em que os blogues "produziram" reportagens de impacto ( o que acontece de vez em quando é algum blogueiro conseguir um furo ou dar bom mote a uma reportagem mais abrangente, que então vem no dia seguinte com um pouco mais de embasamento e, certamente, muito mais credibilidade );
2- Jornais e revistas vivem sem blogues e Twitter. O inverso não é verdadeiro - É só dar uma breve zapeada em qualquer blogue serão vistos com grande frequência reflexões, análises, críticas ou apenas divulgação de conteúdo da imprensa de verdade. Lembrar isto a tanta gente que vive a saltitar "
A imprensa já era" logo após um post em que dá link, cita ou simplesmente chupa uma matéria jornalística é das coisas que mais contribuem para desdizer o grito organizado;
3- Jornais e revistas pagam, de verdade, quando erram - Lembrando que aqui estou falando da grande imprensa, é óbvio que um erro impresso custa muito mais do que um erro postado. Postou errado? Basta apagar, ou logo em seguida mandar um "
desculpe-me". Já quando um veículo de imprensa traz uma notícia errada envolvendo empresa, personalidade ou político, as coisas não são assim tão simples. Primeiro porque parece correto, mas não é prática dedicar o mesmo destaque para o erro e a correção. Segundo porque os riscos de arcar financeiramente com o erro são muito maiores. E um veículo midiático pode sim tomar partido e começar a agir com um viés claramente contra/a favor de um grupo político, da mesma forma como fazem os blogues, com a diferença que este legará uma segmentação que pode custar-lhe a perda de leitores e patrocinadores.
Os três pontos acima não servem para desmerecer a inegável importância da Internet na divulgação de informações e no fomento ao debate. O que se pôde observar neste período ainda "natalício" das comunicações via Internet é que, especialmente em mobilizações populares ou em grandes catástrofes, justamente blogues e twitters é que abastecem a grande imprensa. Só que notícias não são sempre estas "exceções", e o trabalho de apuração ainda faz toda a diferença na qualidade de uma grande reportagem.
Também está mais do que comprovado que a Internet afetou profundamente a imprensa. Não param de surgir números e mais números reportando queda em número de exemplares não só no Brasil, como no mundo todo. Partir desta informação e chegar a atribuir esta perda de público a ferramentas pessoais como Facebook, Blogues e Twitter é no mínimo inocência. Sim, as pessoas podem estar deixando de assinar e comprar jornais, mas não terá sido porque outros grandes jornais, além do próprio que se lia antes, oferecem muito conteúdo em seus portais?
Falar em decadência da grande imprensa talvez tenha mais substância se deixarmos de olhar esta suposta transferência de público e focarmos em outras características. Poderíamos olhar o fim de um modelo de negócios: Antes eles ganhavam duplamente pois havia gente a
comprar notícias em bancas e gente
comprando notoriedade e conhecimento via anúncios; quanto mais gente comprasse a notícia, mais caro a empresa passava a cobrar pela compra da notoriedade. E como eram poucos os veículos com credibilidade e bom número de leitores, eles podiam cobrar caro pelos anúncios. A internet rompeu o ciclo perfeito ao trazer a informação gratuitamente e em vários lugares mas ainda não é um espaço eficiente ( e estou falando aqui de blogues e outras ferramentas pessoais ) na consolidação de marcas. As pequenas e raras exceções de sites pessoais bem-sucedidos nascidos sem ligação a grandes grupos podem servir para iludir, não para negar o fato de que a credibilidade ainda está mais em veículos tradicionais. E como então ficará o modelo de negócios de jornais e revistas? Como manter o sucesso dos impressos quando o que se busca mais e mais é avançar no público online? Conquistados estes leitores virtuais, como capitalizá-los? Até quando a venda de exemplares e de anúncios somado ao faturamento online suportarão as mega-estruturas construídas por estes veículos ao longo dos anos? Como será um tempo sem estas grandes estruturas?
É alvissareiro presenciar um tempo em que a informação não está mais restrita a pequenos grupos de pessoas bem-sucedidas. Ao mesmo tempo, é triste saber que dentre os frutos desta disseminação da informação estejam incluídos muitos sempre prontos a comemorar algo que, no limite, celebra o obscurantismo. O florescimento da informação na Internet não precisa das ruínas da Imprensa.