23.12.11

As Minas Gerais que o livro de Amaury revela

Comecei a ler o livro de Amaury, o tal do livro-bomba, livro-denúncia contra os processos de privatização ocorridos há tanto tempo. Na verdade não fui muito longe e agora será difícil seguir a leitura. Explico.

Desde o seu lançamento há um grande furor de pessoas engajadas politicamente, especialmente aqueles que tiram deste engajamento sua subsistência. Por ter supostas denúncias contra o Governo dos grupos que estão fora do poder desde 2003, foi uma chance de vingança para a turma que cansou de ficar nas cordas defendendo gente como Delúbio, Dirceu, Prof. Luizinho, Palocci, Sarney, Jáder, João Paulo Cunha, Mercadante, Berzoini e tantos outros casca-grossa da coalizão governista. Este pessoal muito afoito e que odeia a "grande imprensa" não perdeu tempo em desenvolver teorias conspiratórias sobre suposto silêncio ao livro, e para a tese valia tudo: Ignorar que a editora não o distribuiu previamente a jornalistas e que não há lembrança de "livro-denúncia" que tenha virado pauta da imprensa séria brasileira. Mas é engraçado encontrar ainda hoje gente que vive a dizer que a "grande mídia" está decadente e não presta ficar chorando e pedindo efusivamente para que esta mesma "grande mídia" dê destaque ao livro.

Tanto barulho localizado em pequenos nichos me despertou a curiosidade. AFinal de contas, tirando os engajados profissionais como os da coalizão governista, não há quem se interesse por política que não queira ver escândalos e roubalheiras sendo investigados e punidos. O roubo na política beneficia poucos, desacredita a democracia, desestimula a participação política e , lógico, impede o país de melhorar. Foi com esta esperança, a de ali encontrar novidades que nos ajudem a descobrir malfeitos do passado, que comecei a ler o livro. Para minha surpresa já de início percebi que aquilo ali só pode ser armação, piada de mau gosto, coisa não para limpar o passado mas sim sujar o grande futuro político de algumas pessoas.

Aécio não pode ser assim

O livro tem como ponto de partida algo totalmente surreal. O que vai abaixo é um trecho do livro que começa na página 24 e relata fatos de dezembro de 2007:
"De posse de um dossiê, Serra teria mandado um recado, por intermédio de seus emissários, para que Aécio jogasse a toalha.Ou seja, Serra, com seu estilo inconfundível, estaria chantageando o neto de Tancredo Neves. O conteúdo do suposto dossiê nunca me foi revelado. Mas vale acentuar que a pauta não nasceu de um boato qualquer. Ao contrário, surgiu de informações dignas de todo o crédito transmitidas pela assessoria do governo mineiro ao Estado de Minas que, aliás, nunca negou sua condição de aecista de corpo e alma."
Não sei se o jornalista percebeu o que deixou escapar ou se ele realmente acha aquilo normal: A pauta de um jornal foi fornecida pelo Governo Estadual? O que saiu em "O Estado de Minas" foi uma dica, uma indicação do Governo de Minas? Não só isto, o que o Governo de Minas passou para o jornal é fruto de uma investigação do Governo de Minas sobre ações do adversário político do Governador de Minas, que estaria supostamente sendo investigado quando em seus passeios pelo Rio de Janeiro.

Aécio Neves, um político ainda muito desconhecido fora de seu Estado, vive a cantar que as coisas em Minas Gerais são diferentes.  É um tal de "em Minas isso", "em Minas assim assado", repetido incansavelmente como cartão de visita. Como presidenciável que se apresenta há tantos anos ( embora depois ele tenha admitido que para 2010 ele só estava fingindo que seria candidato ), seria uma vergonha inadmissível pensar que seu Governo em Minas Gerais era usado para atender a seus interesses intrapartidários. Pior, imaginar que o mais importante jornal de Minas seria totalmente subserviente a estes interesses!

Talvez as coisas em Minas sejam assim mesmo. Algumas páginas adiante, o autor do livro diz que José Serra, para atacar Aécio Neves, teria usado o Estadão. Como? Através de uma coluna de Mauro Chaves. Leiam a narrativa curiosa:
Faltava, no entanto, acalmar o comando do jornal mineiro, inconformado com a arapongagem de Itagiba e com o artigo “Pó pará, governador”, plantado pela entourage de Serra em O Estado de S. Paulo, para desgastar o governador mineiro. Publicado em 28 de fevereiro de 2009, e assinado pelo colunista Mauro Chaves, já falecido, o libelo antiaecista ironizava o desejo do governador mineiro de definir logo, por meio de prévias, o candidato do PSDB ao Planalto. No tucanato paulista, a intenção foi interpretada como um crime de lesa -majestade. Sem nunca ter ocultado seu serrismo, o Estadão dispensou o protocolo e disparou um torpedo visando atingir a pré -candidatura de Aécio abaixo da linha -d’água.Contrastando a linha conservadora do jornal, instilou uma insinuação pesada, uma suposta ligação de Aécio ao “Pó”, ou seja, cocaína para atingir dois objetivos: expor publicamente, de modo vulgar e dissimulado, o comportamento do rival de Serra e enviar -lhe um recado muito claro.Para o Estado de Minas, havia ainda outra razão para detestar o “Pó pará, governador”: o sarcasmo com que eram abordadas as relações entre os jornais mineiros e o comando político estadual. “Em Minas, imprensa e governo são irmãos xifópagos”, gracejava o articulista.Para, pitorescamente, agora em tom de seriedade, comparar Minas com São Paulo, onde Serra e seus antecessores seriam “cobrados com força, cabresto curto” pelos jornalões paulistanos. Era, enfim, difícil digerir Serra e o serrismo. Mas a vingança estava a caminho.“Indignação. É com esse sentimento que os mineiros repelem a arrogância de lideranças políticas que, temerosas do fracasso a que foram levados por seus próprios erros de avaliação, pretendem dispor do sucesso e do reconhecimento nacional construído pelo governadorAécio Neves.” Assim começa o editorial “Minas a reboque, não!”, do Estado de Minas, em 8 de março de 2010, que rejeita o papel subalterno de Minas e de Aécio numa eventual composição com Serra para enfrentar Dilma Rousseff."
Muitos erros. Chamar o Estadão de "serrista" é ignorar que, em 2006, o Estadão lançou vários editoriais em apoio à escolha de Alckmin para a candidatura oposicionista. Muito pior, chamar artigo de um colunista de "opinião do jornal" é talvez projetar a outras empresas o que ele acha normal.
E novamente vemos aqui o autor narrar como normal que um jornal, em Editorial e notas não assinadas, saia em defesa do Governador de seu Estado e o faça em resposta a um artigo de colunista.

Devo em breve avançar na leitura do livro. Acontece que desde já fica bastante complicado levá-lo muito a sério depois de saber que tudo começou com um suposto dossiê que o jornalista jamais viu mas que é muito verdadeiro pois a informação teria sido passada pelo Governo de Minas. É muito uso do combo futuro-do-pretérito mais sujeito indeterminado para um trabalho dito investigativo. Aguardo ansiosamente alguma negativa de "O Estado de Minas", do "Governo de Minas Gerais" ou mesmo de Aécio Neves quanto a esta promiscuidade absurda entre poder público, interesses privados e empresas de comunicação.

As coisas em Minas são diferentes.

P.S.: Este post estava pronto antes das novidades trazidas pelo Implicante.org e CoroneLeaks . Leiam lá!

1 comments:

Harlock disse...

Salve.
Isso de que "não há lembrança de 'livro-denúncia' que tenha virado pauta da imprensa séria brasileira" deve ter só uma excessão mesmo: Elite da Tropa, que em 2006 mereceu d'O Globo e do finado JB chamadas de primeira página por dias seguidos e matérias assinadas por quase todos os colunistas "pogressistas" de ambos.
Segundo essas abalizadas cocorocas a coragem dos autores em exibir as "vísceras expostas da corrupção e da violência policial" não deveria ser respondida pela sociedade fluminense com menos do que um amplo debate sobre o "novo" papel da polícia militar no Estado de Direito e (Surprise!) a descriminalização do "consumo recreativo" das drogas...
Só depois de uns quinze dias limpando o chão com a PM/RJ e vendendo seu peixe-podre "ociológico"... e ainda assim depois de protestos até do Estado-Maior da corporação... é que Soares e seus caveiras-de-pelúcia admitiram públicamente que sua "opvs magna" era um... romance.
Ás vezes duvido que exista alguma seriedade na imprenssa brasileira.